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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Por amor a uma causa

Este texto NÃO é de minha autoria. Partilho-o com a devida autorização da autora, Lurdes Moura, TDE no CNO da EB2,3 D. Afonso, IV Conde de Ourém. Está de tal maneira bem escrito e com uma conclusão tal que subscrevo-o inteiramente.

«Num qualquer dia desta semana, saí da escola por volta das 18 horas e percorri os 35 km habituais para ir buscar a minha filha ao colégio e levá-la ao ballet. O saco do ballet continha, para além das roupinhas, dois pães de leite, um queque e uma garrafinha de água. A minha filhota costuma sair da aula faminta, mas o motivo do lanche tardio era outro: Naquele dia, depois do ballet não iríamos para casa, pois eu voltaria à escola, e sem alternativa, teria de levar a minha filha comigo. Assim que a aula terminou, ajudei-a a trocar de roupa, e por volta das 19 horas e 20 minutos seguimos viagem, percorrendo mais 35 km com o objetivo de realizar uma sessão de diagnóstico a uma única adulta nessa noite. Poderia ter desmarcado a sessão, mas não o fiz. Para essa decisão, contribuiu a dificuldade de contacto anterior com a adulta, impedimentos de ordem pessoal, que a impossibilitaram de comparecer no Centro até essa data, não esquecendo a imperatividade do cumprimento de prazos estipulados pela legislação referente aos adultos desempregados!

Minutos antes das 20 horas chegámos à escola. À entrada, um colega que saía, obervou: “Que frio! Isto não é noite para uma mãe sair de casa com a filha!" Após uma breve troca de palavra, seguimos, ele em direção a sua casa e nós, em direção ao Centro Novas Oportunidades.

Alguns minutos depois chegou a adulta para a realização da sessão de diagnóstico. A Isabel (nome fictício) tem 43 anos e 4 filhos, com idades compreendidas entre os 6 e os 17 anos. Oriunda de um bairro pobre de uma cidade grande, frequentou a escola até concluir o 4.º ano de escolaridade. Tratando-se da filha mais velha, tornou-se “mãe” dos seus irmãos mais novos, tendo sido incumbida da generalidade das tarefas domésticas e responsabilidades parentais. Durante os anos que lhe restaram da sua infância, a Isabel esqueceu muito do pouco que aprendeu na sua curta passagem pela escola. Raramente leu ou escreveu, pois isso não lhe foi exigido, nem permitido, em primeiro lugar pela família e posteriormente pelas suas atividades profissionais.

Quando a Isabel iniciou o preenchimento do cabeçalho da Ficha de Diagnóstico, a agradável caligrafia do cabeçalho, não fazia prever as dificuldades que se seguiam. Constatei que a adulta não consegue ler nem escrever de forma minimamente correta, uma frase simples. Manifestou, em relação a isso, profunda tristeza e muita vontade de, pelo menos, aprender a ler.

A iniciar mais 35 km de regresso a casa, a minha filha, na ingenuidade dos seus seis anos, perguntava-me: “Mamã, quando aquela senhora era pequenina não havia escolas?”. Eu respondi-lhe que sim, mas que aquela senhora não teve a oportunidade de estudar, e fui-lhe explicando os motivos de forma a que ela entendesse. “Tenho muita pena dela, mamã.” Expliquei-lhe que aquela senhora terá a possibilidade de aprender a ler e a escrever na minha escola ou em outra escola, porque a escola também serve para ensinar os adultos”. Após um minuto de silêncio acrescentou: “Mamã, os adultos vêm à escola à noite, porque de dia têm que trabalhar, não é? Ainda bem, senão não podiam aprender”.

Encaminharei esta adulta, à semelhança de outros na mesma situação, para o Programa de Formação em Competências Básicas, com a duração de 300 horas, para que lhe seja possível adquirir competências mínimas de Linguagem e Comunicação, Matemática para a Vida e TIC, que posteriormente permitam a integração num percurso EFA B2, para concluir o 6.º ano e quem sabe, posteriormente o 9º, preferencialmente pela via da dupla certificação.

Ela aproveitará essa oportunidade, se ela existir. Nos seus olhos ficou o brilho da esperança de aprender a ler e a escrever e talvez, posteriormente, concluir o 6.º ano.

Pergunto: alguém terá a coragem de dizer que esta adulta, de 43 anos, não merece essa oportunidade? Que não vale a pena o investimento? Milhares de portugueses(as) com dezenas de anos de vida ativa pela frente e excluídos do mercado de trabalho precisam desta oportunidade! Pela justiça social, pelo desenvolvimento do país, na parte que me compete não deixarei de acreditar, não deixarei de lutar contra o preconceito!»

Sérgio Fernandes

terça-feira, 11 de maio de 2010

Júri de Certificação no Fárrio

Em Setembro de 2009 iniciámos uma parceira com a Junta de Freguesia da Ribeira do Fárrio da qual resultaram já 26 pessoas certificadas, 15 com o 9º ano de escolaridade e 11 com o 12º ano. Ao longo de 8 meses de trabalho, aos quais se juntaram diversas acções de formação para aquisição de novas competências e consolidação de outras, estes adultos tiveram a oportunidade de demonstrar que os seus percursos de vida lhes trouxeram as aprendizagens necessárias para aumentarem o seu nível de escolaridade. O processo formal de certificação decorreu nos passados dias 7 e 10 de Maio nas instalações da Junta de Freguesia da Ribeira do Fárrio. Fica o registo de ambos os dias.
No dia 7 estiveram presentes a Júri 15 pessoas, com idades que variavam entre os 22 e os 61 anos e uma escolaridade de partida entre o 4º, o 6º e o 8º ano. Com profissões predominantemente ligadas à construção civil, mas também à exploração florestal, condução de veículos pesados, prestação de serviços à comunidade e ainda algumas pessoas em situação de desemprego, todos tinham em comum o desejo de se valorizarem, de aprenderem mais e de verem formalmente reconhecidas as suas competências. Apesar da ansiedade que habitualmente está presente nas sessões de Júri, foi com um tom de “valeu a pena” que se ouviram comentários como: “relembrei muitos conhecimentos”, “foi um tempo de que gostei muito, embora muitas vezes tivesse vontade de desistir”, “sinto-me feliz por ter conseguido chegar à meta”, “foi um tempo de valorização e de gosto pela formação”.

O grupo de adultos certificados com o 9º ano e os elementos do Júri de Certificação

No dia 10 foi a vez dos candidatos ao nível secundário apresentarem perante o Júri de Certificação os motivos que justificam o reconhecimento das suas competências. Com idades compreendidas entre os 23 e os 48 anos, os 11 adultos presentes a Júri começaram o Processo RVCC já com o 9º ano concluído. As apresentações basearam-se em experiências de vida diversas, mas profissões como auxiliar de acção educativa e operário fabril, voluntariado nos bombeiros voluntários ou experiências de vida de quem viveu a emigração, serviram de base para ilustrar de que forma o percurso de vida permite adquirir inúmeras competências. Com projectos como o aumento de formação na área de trabalho, cursos para especialização profissional ou mudanças de emprego, todos concluíram o Processo RVCC mais conscientes das competências que detém e das potencialidades que podem ainda desenvolver numa vida activa que tem ainda muitos anos pela frente.

O grupo de adultos certificados com o 12º ano e os elementos do Júri de Certificação

Para todos os adultos que fizeram o processo de certificação de competências no Fárrio, fica os parabéns pelo trabalho desenvolvido e pela certificação obtida. Que este não tenha sido um ponto de chegada, mas apenas um momento de balanço, de reflexão sobre as competências até aqui adquiridas e que permita traçar novos projectos de vida para todos aqueles que querem continuar a valorizar-se e a aprender sempre mais. À Junta de Freguesia fica o agradecimento pela colaboração na divulgação do CNO e pela cedência de instalações para realização do processo RVCC.

Parabéns a todos!

Célia Silva

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Júri de Certificação no Olival

A passada 3ª feira foi um dia muito especial para 26 adultos que frequentaram o processo RVCC no Olival. Após 8 meses de trabalho, entre formação e processo RVCC, viram a sua experiência de vida formalmente reconhecida e certificada com o 9º ano de escolaridade. Foi no meio de algum nervosismo, mas com um discurso bem treinado, porque isto de falar em público não é fácil, que 14 dos candidatos à certificação apresentaram um tema de vida que variou entre a profissão que exercem e um hobby que lhes ocupa os tempos livres. A partir daqui explicaram como é que a experiência lhes permitiu adquirir as competências necessárias ao nível de certificação pretendido e acrescentaram ainda os projectos formativos e profissionais que o processo RVCC permitiu traçar. Mais ao final do dia, os restantes 12 candidatos à certificação apresentaram-nos uma peça de teatro totalmente escrita, ensaiada e representada pelos próprios. Dessa forma criativa deram-nos a conhecer a realidade de um Centro de Dia em diversas vertentes como a preparação de actividades, os cuidados de saúde aos idosos, a gestão do próprio espaço e a utilização das novas tecnologias para as mais diversas actividades diárias. Foi de uma forma animada e com um verdadeiro espírito de união que o grupo aproveitou o saber de cada um para chegarem a um resultado final que ficará na história quer do Centro de Apoio Social, quer do Centro Novas Oportunidades, quer ainda da história pessoal de cada um dos adultos certificados.

Os 7 adultos certificados de manhã, depois de comunicada a decisão final.
Da esquerda para a direita: o Adelino Silva, a Gabriela Fernandes, o Aníbal Santos, a Célia Santos, a Anabela Fonseca, o Adérito Oliveira e a Sandra Jorge


Os 7 adultos certificados ao início da tarde, depois de comunicada a decisão final.
Da esquerda para a direita: o João Andrade, o Sérgio Oliveira, o Sérgio Santos, o Vítor Rodrigues, o Marcelo Fonseca, o Luís Neves e o Rui Dias

Os novos 12 actores do Olival, após a representação, a ouvirem as apreciações dos elementos do Júri quanto às competências demonstradas nos dossiers e na apresentação a Júri.
Fila de trás, da esquerda para a direita: a Maria da Conceição Ribeiro, a Maria Matilde Ferreira, a Maria da Conceição Vieira, a Maria de Lurdes Salvado, a Maria de La Salete Oliveira e a Cristina Ribeiro.
Fila da frente, da esquerda para a direita: a Fernanda Santos, a Ana Maria Marques, o Manuel Vieira, o Abel Marques, a Maria de Fátima Pinto e a Rosa Silva




Dois momentos da peça de teatro que ilustraram algumas das competências que permitiram a certificação

Mais uma vez foi possível perceber a quantidade de pessoas que pelas mais diversas razões não frequentaram a escola, mas que nem por isso são pessoas menos capazes. Apenas fizeram outros percursos e adquiriram outras competências, aquelas que a vida lhes exigiu. Mas se tiveram essa capacidade, de se fazerem à vida, continuarão de certeza a traçar outros percursos e a fazer outras aprendizagens, assim a vida o exija ou a curiosidade por conhecer mais os empurre. Ficou, não tenho dúvidas, uma enorme satisfação, assim o mostrava a animação com que comemoraram o final do processo e se alinhavavam comentários aos próximos desafios.

Para os 26 novos certificados, deixo os parabéns pela etapa cumprida e faço votos de que continuem a investir em si próprios, porque os tempos são de mudança.

Para o Centro de Apoio Social do Olival, deixo o agradecimento pela cedência de instalações e apoio logístico que permitiu todo este processo e permitirá aos novos candidatos, já a partir do dia 10, iniciar nova aventura. Daqui a alguns meses lá estaremos de novo a festejar novas conquistas. Até lá!

Célia Silva

segunda-feira, 12 de abril de 2010

INSIGNARE reune 20 CNOs em Encontro Regional

Foi com casa cheia que decorreu no passado dia 8 o Encontro Regional de Centros Novas Oportunidades organizado pelo CNO da INSIGNARE. Num total de 75 participantes representantes de 20 Centros Novas Oportunidades dos distritos de Santarém e Leiria, e com a colaboração de 11 convidados externos que colaboraram na dinamização dos grupos de trabalho, foi num ambiente de verdadeira partilha e convívio que se misturaram equipas, se trocaram opiniões, se compararam metodologias e se alargaram horizontes em relação à actividade de reconhecimento de competências.
Auditório da Escola Profissional de Ourém, onde decorreu o Encontro Regional de Centros Novas Oportunidades

Após a abertura do Encontro pelo Director do Centro, Dr. Francisco Vieira, que valorizou o espírito de partilha que esteve na génese deste evento, a vice-presidente da ANQ, Drª Maria do Carmo Gomes, fez uma intervenção subordinada ao tema ”Os Centros Novas Oportunidades e a Aprendizagem ao Longo da Vida: que futuro”. Percorrendo as seis linhas de ruptura com o anterior paradigma da educação e formação de adultos a que temos assistido nos últimos 10 anos em Portugal, destacou a centralidade da Iniciativa Novas Oportunidades como grande alavanca desta ruptura. Concluiu defendendo o papel dos CNOs não só na certificação de competências, mas essencialmente na criação de uma nova sociedade aprendente, de cidadãos mais despertos e conscientes para a importância da formação ao longo da vida, como um dos factores essenciais para a sustentabilidade e justificação da continuidade dos Centros Novas Oportunidade.
Célia Silva, Coordenadora do CNO da INSIGNARE, Maria do Carmo Gomes, Vice-Presidente da ANQ e Francisco Vieira, Director do CNO da INSIGNARE

O Encontro prosseguiu com a organização das equipas técnico-pedagógicas em cinco grupos de trabalho de acordo com as funções desempenhadas, incluindo um grupo de Avaliadores Externos, onde foram debatidas questões metodológicas e operacionais, constrangimentos e potencialidades dos processos de RVCC e da própria Iniciativa Novas Oportunidades. Foram debates produtivos, com partilhas de dificuldades e de estratégias de superação, mas também de exemplos de boas práticas e de procedimentos eficazes, que contribuíram com toda a certeza para um enriquecimento das equipas presentes, das suas metodologias e das suas estratégias de actuação.

Grupo de trabalho de Directores e Coordenadores

Contou com a colaboração do CNO do Centro de Formação de Tomar, representado pelo seu Coordenador, Paulo Candoso, e foi moderado pela Vice-Presidente da ANQ, Maria do Carmo Gomes


Grupo de trabalho de Avaliadores Externos

Contou com a colaboração de dois Avaliadores Externos da INSIGNARE, Isabel Tenreiro e José Ferraz e foi moderado por um dos autores do Roteiro Metodológico da Sessão de Júri de Certificação (publicado pela ANQ) João Lima

Grupo de trabalho de Técnicos de Diagnóstico e Encaminhamento

Contou com a colaboração do CNO da ATEP - Associação Torrejana de Ensino Profissional, representado pela Técnica de Diagnóstico Elisabete Pereira e foi moderado pela Técnica de Diagnóstico da INSIGNARE, Carla Bettencourt


Grupo de trabalho das equipas de nível básico

Contou com a colaboração do CNO da Escola Profissional Gustave Eiffel, no Entroncamento, representado pela Profisisonal de RVCC Mónica Guerra e foi moderado pela formadora externa da ANQ Helena Marques, Profissional de RVCC do CNO da Escola Secundária de Oliveira do Hospital

Grupo de trabalho das equipas de nível secundário

Contou com a colaboração do CNO da NERLEI - Associação Empresarial da Região de Leiria, representado pela Profisisonal de RVCC Patrícia Almeida e pela Formadora de CLC Margarida Henriques e foi moderado pela formadora externa da ANQ Sandra Saúde, Profissional de RVCC no CNO da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra

No final, e novamente em sessão plenária, foram apresentadas as conclusões de cada grupo de trabalho e as dúvidas que persistiram, as quais foram comentadas novamente pela representante da ANQ, Drª Maria do Carmo Gomes. Destacou-se no seu discurso a importância de os CNOs se empenharem no cumprimento das metas a que se propõem, mas também no rigor e qualidade com que fazem os processos de certificação como única garantia de credibilidade do sistema. Relembrou ainda a importância de se alimentar uma cultura de aprendizagem, em que os CNOs têm um importante papel no despertar das pessoas para a aprendizagem ao longo da vida como forma de melhor se prepararem para as cada vez maiores exigências do mercado de trabalho.

Por fim, a sessão contou ainda com a presença da Câmara Municipal de Ourém, representada pela Vereadora Lucília Vieira, que congratulou a INSIGNARE pela iniciativa e realçou o papel de dinamização e diversificação das ofertas formativas que tem disponibilizado à população do concelho.

O Director do CNO, Dr. Francisco Vieira, encerrou a sessão agradecendo a presença de todos e fazendo votos de que o Encontro traga um enriquecimento no trabalho das equipas presentes.

Ficou ainda um agradecimento especial a todos os presentes pelos contributos que trouxeram para o Encontro, bem como a todos os CNOs e individualidades convidadas para colaborarem na dinamização do evento.

Célia Silva

domingo, 7 de março de 2010

Diplomas entregues!

Costumo ouvir dizer que as pessoas ou as coisas que nos dão mais trabalho são aquelas de que mais gostamos. Talvez porque são aquelas que nos exigem mais e nos fazem pôr nos pratos da balança os prós e os contras daquilo que fazemos e nos confrontam com a sempre difícil decisão entre o desistir e o ir até ao fim.

Na passada sexta-feira, em mais uma cerimónia de entrega de 1000 diplomas de formação contínua e de certificação de competências, pude mais uma vez perceber que os projectos que mais exigem de nós são aqueles que também nos dão mais satisfação.

Sexta-feira foi, sem dúvida, um dia de celebração. Para as mais de 1000 pessoas que foram receber um diploma de formação contínua e / ou de certificação de competências, foi notório o sentimento de festa. Para todos eles o percurso foi exigente. Começaram por abdicar do conforto do sofá, como se ouviu num dos testemunhos, abdicaram do tempo de lazer, reorganizaram compromissos profissionais e familiares, confrontaram-se com dificuldades, com dúvidas em relação ao que seriam capazes de fazer. Mas todos os que estiveram presentes não desistiram. Procuraram ajuda, superaram-se a si próprios, puseram nos pratos da balança os prós e os contras de concluir a certificação. E decidiram que o trabalho valia a pena.

E sexta-feira foi notório que valeu a pena! Foi notório naqueles que, em representação das mais de 1000 pessoas, subiram ao palco para receber o seu diploma; foi notório nos testemunhos convictos e sentidos de orgulho pela meta alcançada; foi notório nos aplausos ao Fu Bu, nas vozes em coro que acompanharam o Pedro Miguéis e nos pedidos para cantar em português, porque o inglês não é fluente; foi notório ainda na quantidade de luzinhas vermelhas que sobressaíam na escuridão do auditório do Paulo VI a apontar para o palco para registar um momento único; e foi ainda notório no brilho do olhar com que cada um dizia orgulhosamente o seu nome e recebia com ambas a mãos um diploma, como que a dizer “este já ninguém me tira!”

Garantidamente que para cada um dos presentes o sentimento de satisfação foi directamente proporcional ao empenho que colocou neste processo. E por isso, o dia foi de festa e de justa celebração!

A todos, parabéns pela etapa cumprida!
Célia Silva

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Novas Oportunidades a Ler +


O Plano Nacional de Leitura (PNL) é uma iniciativa do Governo que visa promover o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita particularmente direccionada para os jovens, mas com acções também pensadas para a população adulta. Tem como objectivo central elevar os níveis de literacia da população portuguesa.
“Destina-se a criar condições para que os portugueses possam alcançar níveis de leitura em que se sintam plenamente aptos a lidar com a palavra escrita, em qualquer circunstância da vida, possam interpretar a informação disponibilizada pela comunicação social, aceder aos conhecimentos da Ciência e desfrutar as grandes obras da Literatura”, pode ler-se na apresentação do projecto no sítio electrónico do PNL.

Das diferentes vertentes de intervenção pensadas para os diferentes níveis etários, tem para nós particular interesse o projecto Novas Oportunidades a Ler+. São as seguintes as linhas de orientadoras:
* criar um ambiente de leitura no Centro Novas Oportunidades;
* promover dinâmicas de leitura integradas em diversas áreas dos referenciais de competências-chave
* apoiar percursos pessoais de leitura
* organizar um acesso regular a bibliotecas e ao uso dos seus recursos

Também nós consideramos a leitura como uma ferramenta de literacia essencial para cidadãos autónomos, informados, conscientes de si próprios e do mundo que os rodeia. E porque por nós passam diariamente dezenas de pessoas à procura de ver reconhecidas e aumentadas as suas competências, também nós temos algo a fazer no domínio dos hábitos de leitura. Por isso, já aderimos ao projecto Novas Oportunidades a Ler+. Em breve daremos notícias das actividades que vamos desenvolver.

Até lá, leia. Pela sua cidadania!
Célia Silva

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Às vezes perguntamo-nos o que andamos a fazer, porque o fazemos, ou se algo faz sentido. Às vezes temos dúvidas, pomo-nos em causa e somos postos em causa pelos outros. Às vezes abanamo-nos, outras vezes abana-nos a vida. E é nessas alturas que percebemos mais claramente se as coisas fazem ou não sentido.

Vem isto a propósito daquilo que faço todos os dias: trabalhar num Centro Novas Oportunidades. Já lá vão mais de cinco anos que também eu agarrei esta oportunidade. Do início. Assisti ao nascer de um Centro. Tudo era novo, para mim e para as pessoas com quem trabalhei. Todos os aspectos tiveram de ser pensados. Uns sozinhas, outros pelo velho método da tentativa-erro, outras ainda com a precisosa ajuda de pessoas excelentes que encontrámos noutros Centros. Tudo acabou por correr bem. A iniciativa Novas Oportunidades ainda não estava lançada, eramos apenas um Centro RVCC. Estavámos, ainda, em ambiente protegido. A escala era bem mais pequena. Mas desse tempo até hoje, muita coisa mudou. Hoje toda a gente fala das Novas Oportunidades e muita gente tem uma opinião. Uns com conhecimento de causa, outros porque ouviram dizer. Eu sei o que se passa no meu Centro. Eu sei o que tenho visto nestes últimos cinco anos e meio. Porque os tenho vivido por dentro. Desde a dimensão que a Iniciativa ganhou, às mudanças que têm ocorrido nas estruturas centrais, na legislação e nas orientações técnicas. Ao alargamento das equipas, ao alargamento das ofertas de certificação. À dificuldade de implementar uma vertente de certificação profissional, para a qual o sistema ainda não está preparado. Às perguntas fundamentais a que ninguém me sabe responder. Às dúvidas existenciais sempre que leio críticas destrutivas (algumas que me dão vontade de rir pelo desconhecimento que manifestam). Às dúvidas sobre a importância e validade daquilo que eu e uma equipa de 14 pessoas fazemos diariamente. E aos muitos esforços pessoais que isso implica. É impossível não me questionar. Tudo isto valerá a pena?

Às vezes preciso de parar. De me afastar e observar. De olhar para os números. Porque eles também me dizem alguma coisa. E percebo que apesar de estarmos no terreno há 8 anos, as inscrições continuam a chegar-nos. As pessoas continuam a sair com um sentimento de satisfação pelo diploma que conseguiram. A dizer que valeu a pena. E quase metade dos que daqui saem com um diploma, continuam a procurar a formação. Que lhes enriqueça a experiência de vida, que lhes abra mais horizontes. Alguns já o faziam, outros descobrem-no agora. E mesmo aqueles que anseiam pelo dia de Júri para poderem guardar o dossier lá em casa, como se de uma herança premeditada se tratasse, mesmo esses já perceberam que afinal a vida tem outras possibilidades. Esses até passaram a ter um computador em casa ou simplesmente perderam o medo de lhe mexer. Porque o computador era para o filho, ele é que anda na escola. Mesmo esses perceberam que afinal até conseguem escrever um texto, ler um livro, fazer uma pesquisa, perceber uma lei da física. Mesmo alguns desses resolveram um medo que persistia, o da escola. E com ele o de não ser capaz.

E é nestes momentos que percebo que afinal as minhas angústias e dúvidas existenciais não são nada. Porque tudo isto tem um alcance bem maior. Neste momento são já mais de 900.000 os inscritos nos Centros Novas Oportunidades. Sem contar com as inscrições directas em Cursos de Educação e Formação de Adultos. Algum programa de ensino neste país conseguiu esta mobilização? Quantas destas pessoas ainda pensavam voltar à escola? Quantas destas pessoas deixariam a rotina das suas vidas para se proporem a esta experiência, que também lhes traz angústias e dúvidas existenciais? Porque mexe com elas, porque mexe nas rotinas instaladas.

Alguma coisa estas pessoas procuram e alguma mudança este movimento há-de trazer. E é por isso que eu acredito que o meu trabalho vale a pena. O meu e o das restantes pessoas com quem trabalho todos os dias e que dedicam muito do seu empenho e tempo pessoal. Porque o fazem com dedicação. Afinal, é a vida das pessoas que é a nossa matéria-prima. E isso toca-nos.

Mal de nós se a aprendizagem se limitasse aos bancos da escola. Aí construímos as bases. As verdadeiras competências, as mais sólidas, as que perduram, fazem-se na escola da vida. São processos que se completam e não concorrentes.

Um grande bem-haja a todos os que não param e que continuam a sonhar. Mesmo com angústias e dúvidas existenciais. Não é isso que nos move?

Célia Silva (Coordenadora do CNO)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Competências para a Vida"

Hoje o termo "competências" está muito presente no dia-a-dia... ou sou eu que, por motivos profissionais, tenho o conceito presente todos os dias. Mas talvez não seja só eu. E nem só em Portugal, a propósito da Iniciativa Novas Oportunidades. A nível internacional têm sido feitos estudos sobre a avaliação das competências de literacia da população de diferentes países. E para nós, portugueses, os resultados não são nada famosos...

Alguns resultados de um destes estudos, o IALS - International Adult Literacy Survey (realizado entre 1994 e 2000), foram apresentados no 3º Encontro Nacional de Centros Novas Oportunidades, que decorreu em Dezembro em Lisboa.


Deixo aqui a apresentação.

competências para a vida
















Para mim, há muito trabalho a fazer. Não me restam dúvidas de que a aprendizagem ao longo da vida é essencial nos dias que correm.


Célia Silva, (Coordenadora do CNO)